quarta-feira, 11 de maio de 2011

quero, mas não quero!



Canção do Sonho Acabado

Já tive a rosa do amor
- rubra rosa, sem pudor.
Cobicei, cheirei, colhi.
Mas ela despetalou
E outra igual, nunca mais vi.
Já vivi mil aventuras,
Me embriaguei de alegria!
Mas os risos da ventura,
No limiar da loucura,
Se tornaram fantasia...
Já almejei felicidade,
Mãos dadas, fraternidade,
Um ideal sem fronteiras
- utopia! Voou ligeira,
Nas asas da liberdade.
Desejei viver. Demais!
Segurar a juventude,
Prender o tempo na mão,
Plantar o lírio da paz!
Mas nem mesmo isto eu pude:
Tentei, porém nada fiz...
Muito, da vida, eu já quis.
Já quis... mas não quero mais...
(Cecília Meireles)


terça-feira, 3 de maio de 2011

another one


É só um cara.

Não o ‘denso lago de mistérios gozosos onde você mergulhou e ainda não submergiu’. Nem o ‘sustentáculo de todos os ossos de seu corpo’, tampouco ‘o mármore onde está gravada a suprema razão de sua existência’.

É só um cara.

E quer mesmo saber? É um cara como todos os outros caras.
Esse que te perguntou as horas no meio da rua – podia ter sido ele e você nem ligou.

O mendigo, o ginecologista, o padre, o dealer.
Ele estava ali o tempo todo. E ele não estava.

Ele é só um deles. Vários. Uma legião. E ninguém.

É só um cara. E não a sua vida.

E não todos os dias da sua história. E não todas as suas lágrimas juntas em um único sábado solitário.

Ele não é o destino. É um cara. Existem muitos destinos.

Ele é só um cara que mal sabe escolher os próprios perfumes. Não sabe sangrar. Não sabe que nome daria a um filho. Não pode ficar mais tempo.

Ele é só um cara perdido como muitos outros caras que você encontrou. E perdeu.

Ele é só um cara.

E você já esqueceu outro caras antes.

(Autora:Tati Bernardi)